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Integração para resgatar a notoriedade do café de Campestre, Machado e Poço Fundo
Ter, 17 de Agosto de 2010 15:04

ENTREVISTA

Maria Selma Magalhães Paiva


Proprietária da Fazenda Recanto, no município de Machado, a engenheira agrônoma Maria Selma Magalhães Paiva foi escolhida para presidir a associação de produtores dos municípios de Campestre, Machado e Poço Fundo, que objetiva a formulação do pedido de registro de Indicação geográfica (IG) junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). A associação foi criada em 26 de maio de 2010, durante o Seminário realizado no Instituto Federal do Sul de Minas – Campus Machado. Cafeicultora da quarta geração, Maria Selma aceitou o desafio de buscar a organização e integração dos produtores, visando a aprovação do registro de IG e a conseqüente valorização do café produzido na região de referência.

Você foi escolhida para presidir a associação que representa os cafeicultores de Campestre, Machado e Poço Fundo. Que características indicam a existência de um território comum que justificaria o pedido de indicação geográfica?

Maria Selma: Em primeiro lugar, pode ser ressaltada a topografia deste espaço geográfico, que a caracteriza como de cafeicultura de montanha, na qual se desenvolve um trabalho artesanal, com a maioria dos tratos culturais realizados manualmente. A localização e a altitude dos três municípios também representam grande potencial de se produzir um café de alta qualidade, quando bem manejado. Existe entre estes três municípios muita diversidade de produção, tecnologia e perfil das propriedades. Machado se tornou um pólo gerador e difusor de conhecimento em cafeicultura orgânica. Poço Fundo é referência internacional na produção orgânica de café com certificação de comércio justo e, Campestre, destaca-se como sexto maior município produtor de café do Sul de Minas, contando também com núcleos de agricultores familiares produtores de café orgânico de qualidade. Por fim, nos três municípios existe um saber fazer próprio da região de montanha, aspecto que confere uma forte implicação no desenvolvimento territorial, com uma notável contribuição da agricultura familiar.

Por que a escolha dos municípios de Campestre, Machado e Poço Fundo?

Maria Selma: Estes municípios foram destacados em um estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Café, Instituto Federal do Sul de Minas e Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), que identificou similaridades neste território, com características de clima e relevo, além de um modo de produção manual que pode ser destacado como sua principal característica. Com base nos resultados deste estudo, os pesquisadores elaboraram um projeto voltado para a mobilização dos produtores para a formalização de pedido de IG para o café produzido nesta região, o qual foi aprovado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e vem sendo coordenado pela Embrapa Meio Ambiente, com a parceria de diversas instituições de pesquisa, ensino e extensão.

Quais as grandes dificuldades enfrentadas pelos cafeicultores desta região?

Maria Selma: O sistema de produção é basicamente manual, com poucas possibilidades de mecanização, sobretudo para o produtor familiar. A dificuldade de mecanização torna a cafeicultura altamente exigente em mão-de-obra, o que encarece sobremaneira os custos de produção. Além disso, a forma de comercialização usada pela maioria dos produtores não valoriza o café de maior qualidade, havendo quase sempre remuneração que não estimula os investimentos em processos de colheita e pós-colheita que preservem a qualidade superior do produto. Outra dificuldade é que o café é uma cultura muito conservadora. Os produtores são resistentes a incorporação de novas tecnologias de produção e processamento.

Em que sentido a Associação poderá trabalhar para diminuir esta resistência?

Maria Selma: Uma das funções da Associação é justamente promover uma maior integração entre os produtores e a realização de treinamentos de gestão que venham a agregar valor ao produto. A ideia é mostrar a estes produtores a possibilidade de se produzir um café ainda com mais qualidade, sem que isso represente um aumento significativo de seus custos. Muitas vezes a diferença de qualidade está apenas no processo de produção inadequado. Por meio da Associação, os produtores poderão ter acesso a informações sobre tecnologia, gestão e mercado.

Você está na quarta geração de uma família tradicional de Machado. Qual o segredo desta sustentabilidade?

Maria Selma: O segredo é ter os pés no chão, porém, evoluir conforme as demandas do mercado. Produzir o que o mercado pede. Nossa propriedade passou por uma grande mudança de enfoque, quando observamos que o meio ambiente é o ponto crítico para a nossa produção. Optamos assim pelo melhor manejo do ecossistema, o que gerou um maior equilíbrio em toda a propriedade, com a valorização não apenas do produto, mas de toda a atividade. Isso porque o nosso desejo, assim como certamente é dos demais produtores da região, é permanecer na atividade, com um produto de qualidade, economicamente sustentável e que também seja socialmente justo. Desejamos que isso permaneça na geração dos nossos filhos e sucessivamente.

O pedido de IG requer um resgate histórico da cafeicultura na região. Lembrar esta trajetória é importante para incentivar as novas gerações e para valorizar as conquistas e desafios dos primeiros cafeicultores...

Maria Selma: Sem dúvida, o resgate histórico é um dos benefícios que a Associação já vai ter, independente do registro de IG. Lembrar esta trajetória é resgatar a imagem do café de Machado, conhecido nas primeiras décadas do século XX como a cidade do café de qualidade. Junto com Machado, toda a região se tornou reconhecida, o que incentivou a expansão da cafeicultura em Poço Fundo e Campestre. Por um tempo, esta imagem ficou esquecida, até pela falta de incentivo para se produzir um café de qualidade, mas chegou a hora de resgatar este nosso diferencial. Nós devemos isso não apenas para valorizar o trabalho dos primeiros cafeicultores, que desbravaram estas terras e geraram o desenvolvimento dos municípios, mas também às próximas gerações, que terão na atividade um incentivo a mais para sua permanência no campo.

Quais os próximos passos da Associação e os principais desafios?

Maria Selma: Estamos na fase de formalização da Associação e elaboração do estatuto. O desafio é justamente conseguir uma maior integração dos produtores e a sua institucionalização junto à comunidade dos três municípios. Para isso, a Associação deverá focalizar a atenção na mobilização dos produtores, lembrando que o pedido de IG será uma alternativa e uma grande oportunidade, ressalte-se, para melhorar a qualidade de vida dos que se dedicam à produção do café artesanal das montanhas de Minas.


Redação: Cibele Aguiar

 

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